ETERNO RETORNO Leio que o Carlos Alberto, no mínimo, ficará no banco de reservas no clássico do São Paulo contra o Corinthians, domingo no Morumbi. Impressiona como um jogador tão jovem, tem apenas 23 anos, já viajou tanto, rodou tanto e conseguiu criar um cinturão de desconfiança ao redor do seu futebol. Se o Muricy Ramalho colocá-lo no banco de reservas será mais um recomeço na vida de um jogador que está longe de ser considerado um veterano.
Não existe, dentro do futebol dos tempos atuais, jogador que mais bem encarne o espírito desta época de contas bancárias gordas e esquálida estabilidade do que o Carlos Alberto. Ainda nas divisões de base do Fluminense, ele surgiu como mais uma certeza. Nem sequer ficou na categoria da promessa. Tratavam-no como um jogador pronto, um craque da mais fina estirpe e pronto para construir uma carreira daquelas de deixar os mais jovens, do que ele claro, com inveja.
Pois foi assim que banda tocou o ritmo funk que o Carlos Alberto tanto aprecia. Saiu dos juniores pronto para sentar ao lado do Rivelino no coração dos tricolores e com a palavra ídolo escrita em etiqueta que se enxerga de longe. Entre o sonho e a realidade criou-se um abismo que só os terremotos de elevados níveis na escala Richter são capazes de fazer e o Carlos Alberto saiu das Laranjeiras direto para o Aeroporto Tom Jobim, com parada obrigatória em Portugal.
Não creio que o Carlos Alberto tenha mania por aeroportos, mas ele já conhece o de Lisboa, o de São Paulo, o do Rio de Janeiro, este muito bem, o da Alemanha e novamente o de São Paulo. Convenhamos que para um jogador de 23 anos é muita viagem e ao mesmo tempo não existe nada mais esclarecedor de como são os tempos atuais.
Esta volta ao Brasil e para o São Paulo tem sabor de recomeço para um jovem que não pode ser acusado de omisso ou tampouco covarde em momentos decisivos. Muito pelo contrário. No auge da crise corintiana, o Carlos Alberto tentava de tudo em campo. Não conseguia, mas lutava até o fim. Por um desses mecanismos que talvez nem ele saiba explicar, o futebol do garoto promissor das categoria de base do Fluminense virou bissexto. Dá os ares de sua graça ocasionalmente e este é o problema.
Talvez este seja o maior problema para que o Carlos Alberto confirme as expectativas e volte a ser um candidato a candidato a conceitos melhores dentro do futebol. E talvez também esteja aí a razão de tanta oscilação. É muito difícil saber que tem talento, mas não conseguir mostrá-lo; conviver com quem só elogia, os próximos, e administrar as críticas, que partem dos distantes. Que Carlos Alberto o São Paulo recebeu, eu não tenho a menor idéia. Terá um técnico de muito siso e pouco riso e um ambiente mais do que favorável. Só dependerá dele a confirmação desta expectativa. Aí mora o perigo e aí está a chance.
MAESTRO SOBERANO Fosse vivo e o mestro soberano faria nesta sexta-feira 80 anos. Me acostumei a vê-lo caminhando pelas ruas do Leblon e era capaz de desviar o caminho só para acompanhá-lo. À distância, como convém para o tiete discreto, caso em que me encaixo com roupa confortável e desejo realizado. Partiu em 94 e deixou um legado mais eficiente do que qualquer antidepressivo e com uma beleza como a da Ilha das Cagarras, em dia ensolarado. O senhor Tom Jobim era um senhor brasileiro. Daqueles que deixam a gente cheio de orgulho.
No caminho para o trabalho, eu o ouvi longamente. Quase bati com o carro, mas entrei na emissora mais leve. Acho que hoje a noite vou andar pela praia até o Leblon.
Bom fim de semana para todos.
Escrito em às