DE RONALDO A KAKÁ Cinco anos atrás, naquele mesmo gramado do estádio em que o Milan conquistou o Mundial de Clubes, o Ronaldo, à época fenomenal, era a estrela da festa. O dono de todos os espaços, o dono do mundo e caminhava com a bandeira do Brasil. Diz um sábio desses que jamais escreveu um livro e só aprendeu nas esquinas que a vida é circuito oval. Pena que nem todos saibam disso ou aceitem a realidade.
Assim que terminou o jogo, a festa em torno do Milan, especialmente ao redor do Kaká, era mais do que justificada. Ninguém tem dúvidas de que o atacante brasileiro foi o melhor em campo e responsável direto pelo título milanista. Quando não fez participou e, ao lado do Seedorf, mostrou como se desequilibra uma partida. Mas não foi esta a cena que mais me chamou a atenção. Comemorações e despedidas são sempre iguais _ na do Milan só teve uma diferença. Ninguém conversou com a câmera mandando mensagem para a mãe, o pai, a namorada ou a turma da rua.
No meio daquela festa, a figura que mais me chamou a atenção foi a do Ronaldo, fenomenal cinco anos atrás naquele mesmo campo. Com o uniforme do Milan, de tênis e cabelo um pouco mais curto, ele filmava a festa, como se fosse um torcedor. Nada mais do que isso. Ao vê-lo, expressão descontraída mas certamente frustrado pela ausência, e não pude deixar de voltar no tempo e recordar o que aconteceu cinco anos atrás. Qual um filme, o que vi foi um Ronaldo de camisa amarela, calção azul, cabelo à moda Cascão e um título mundial. O quinto na galeria brasileira.
Pois o tempo passou não apenas diante da janela da Carolina. Daquele jogo para cá, o Ronaldo mais filmou do que foi filmado. Naquela Copa do Mundo, o Kaká era um figurante à caminho do papel de coadjuvante. E o Ronaldo, fenomenal então, o grande protagonista. Como dizem os puxa-sacos: o homem que mandava prender e manda soltar. Agora, o Ronaldo, que já foi fenomenal, é um mero espectador. Um figurante ilustre de uma companha formada por grandes estrelas.
Não sei se o Ronaldo se deu conta do que aconteceu no gramado do estádio de Yokohama, mas se parar e pensar um pouquinho ele verá que as mudanças nos papési não aconteceram por acaso. Em cinco anos, ele disputou uma outra Copa do Mundo e mais decepcionou do que alegrou. Está certo que no jogo com a França, ele foi um dos que procuraram o gol e tentaram, mas isso foi muito pouco diante das atuações que teve.
Ao mesmo tempo em que o Ronaldo acumulava histórias de um passado fenomenal, o Kaká escrevia histórias no presente e no futuro. Soube aproveitar muito bem estes cinco anos. Deixou no Aeroporto de Narita o menino tímido, o jogador promissor e cedeu lugar para um sujeito que sabe o que quer e conhece o caminho.
Nesta segunda-feira, o Kaká será eleito _ o contrário se transformará numa grande surpresa _ o melhor jogador do mundo. Tanto quanto o prêmio anterior e o título conquistado sobre o Boca Juniors é mais um reconhecimento a quem sobra na turma. Não é situação nova para o Ronaldo, que em épocas fenomenais levou dois destes prêmios para casa. O novo, que pelo menos para mim causa estranhamento e, quem diria, um certo desconforto, é observar o Ronaldo como um fã a filmar os jogadores que construiram o título do MIlan. O novo é vê-lo ali com o olhar fixo no visor da câmera procurando os melhores ângulos e as melhores imagens.
Sei lá se o Ronaldo se incomoda, mas confesso que eu fiquei meio aturdido. Ao cinegrafista, eu prefiro o atacante. Tomara que ele também ainda prefira, pois ao lado do Kaká não teria melhor parceiro para se reencontrar com um passado que não é tão distante assim: cinco anos, um a mais do que o mandato presidencial.
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