O DODÔ É DIFERENTE A informação, negada pelo principal personagem, é de que o Dodô vai deixar o Botafogo. Uma pena para o clube e para os seus torcedores. Nestes tempos de negociações frenéticas, de mercado aquecido e busca por melhores dias e salários, o ídolo é fundamental. Mantê-lo entre os contratados tem um significado especialíssimo. Não é apenas pelo talento mais do que reconhecido que o São Paulo mantém o Rogério Ceni. Algum dirigente com visão cem por cento ou óculos com os graus adequados já entendeu que o ídolo é um dos caminhos para aumentar faturamento, sedimentar paixões e criar fidelidade.
São poucos os clubes que têm um ídolo. Muitos deverão contestar esta observação, mas esclareço que se confunde o jogador que agrada com o jogador que cria morada no coração do torcedor. O ídolo não é o cabeça-de-bagre, o botinudo ou um persoangem folclórico. Ele é aquele em quem você confia, aposta suas fichas e, mesmo quando está mal, você o poupa por saber que será capaz de resolver a situação. Caso não consiga naquele dia, o crédito é muito mais alto do que o débito. Aliás, o ídolo jamais fica em débito.
Em um clube que anda para a frente a cada ano e este foi um dos melhores, apesar das frustrações, o Dodô se transformou em ídolo. Mesmo com suas saídas e suas voltas. Criou a relação de empatia necessária para os que transitam acima do bem e do mal. Caso dos ídolos. Tem a ver com o futebol refinado que joga, com o jeito especial para marcar os gols plásticos de que tanto gosta e com o olhar de jogador das antigas. Mais parece recém-saído dos anos cinquenta. É um fidalgo dentro do campo.
O dia que os botafoguenses aprenderem que a frase "há coisas que só acontecem ao Botafogo" não é para ser levada para o lado ruim, a vida deles e do clube será bem melhor. Outras coisas muito boas aconteceram ao clube em toda a sua história e o Dodô, tenham certezas todos a quantas estas lerem, foi uma das melhores. Ñão defendo a sua convocação para a Seleção Brasileria _ tal e qual a Carolina do Chico Buarque o tempo passou _, mas não se pode discutir a capacidade que tem para colocar a bola dentro do gol. Estilo e precisão não lhe faltam. Em todos os clubes por onde atuou, ele deixou sua marca, mas no Botafogo foi especial. Poderia ter feito gol que demitiria o Daniel Passarela e deixou de fazê-lo, não por preciosismo, mas por....deixar de fazê-lo.
Cito o jogo tão marcante contra o River Plate, que todo clube tem na sua vida (o Flamengo com o gol de barriga do Renato, pelo Fluminense; e o Palmeiras a virada do Vasco na final da Mercosul, só para que os botafoguenses entendam que assim é o futebol, pois ele provocou uma série de comentários que não cabiam naquele momento. Ao disparar contra os jogadores, a diretoria, parte dela na verdade, cometeu o pecado de desvalorizar o patrimônio do clube. Imaginem o que a diretoria do São Paulo, toda ela, pensou quando o time, num ameno sábado paulistano, foi eliminado do Campeonato Paulista pelo São Caetano, hoje um encantado a nada sedutora música do rebaixamento da Série B para a Série C?
Cobras, largatos e outros bichos, os diriegentes devem ter falado daqueles jogadores. Só que nenhuma declaração foi colada no poste. Em silêncio se decepcionaram e em silêncio agiram. Há jogadores que não estão nem aí para o que o dizem deles os dirigentes. Outros se comportam de maneira bem diferente. O Dodô se encaixa neste caso. Não tem procurador e quando veste uma camisa, especialmente a do Botafogo, dá por ela o que pode e não tem. Não existe melhor ou pior temperamento. Criticam-no por ser frio ou calado. Querem um esquentado e falastrão. Prefiro o estilo do Dodô. Lembrem do gol que marcou contra o Santos e verão que ele estava com raiva, mostrada do único jeito que sabe mostrar.
O Botafogo terminará a temporada com a frustração de não ter conquistado um título. Não é o pior dos mundos. O clube pode andar de cabeça erguida pelas ruas e quem lá joga também. Precisa da serenidade necessária para entender que este é o caminho. Precisa se preparar para trilhá-lo. Até por ja saber como se chega ao seu início e, certamente, ao seu fim. Mas para que isso aconteça tem que jogar fora o destempero, arquivar a impetuosidade verbal e valorizar o que tem. Como o Dodô. O elenco não precisa de faxina _ mas de limpeza _ e tratar a cabeça com o carinho que os pés de alguns, entre eles o Dodô, o Zé Roberto, o Joílson e o Lúcio Flávio tratam a bola.
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