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Jornalista há 29 anos, Paulo Cesar Vasconcellos começou sua carreira na Luta Democrática, no Rio de Janeiro, Depois, ele trabalhou na Rádio Nacional, Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil, onde foi repórter e editor de esportes, TV Globo, ESPN Brasil e atualmente é chefe de redação e comentarista do canal SporTV. Cobriu sua primeira Copa do Mundo em 1982, na Espanha, e depois fez a cobertura da realizada no México, em 86; da França, em 98; e da Alemanha, em 2002. Jornalista esportivo há duas décadas, Paulo Cesar Vasconcellos já realizou a cobertura de Jogos Olímpicos, Pan-Americanos, Mundiais e Pré-Olímpicos. Tem pelo esporte, especialmente o futebol, muita paixão. Este blog abordará não apenas o futebol, mas a paixão que o esporte desperta. “A vida se repete num campo, numa quadra, num tatame e numa piscina”, diz ele. pcvasconcellos@globo.com
PCVasconcellos
MOVIMENTAÇÃO DO MERCADO
Houve um tempo em que nesta época do ano, o mercado se caracterizava pelo delírio. Os sempre falantes dirigentes ficavam ainda mais loquazes e desandavam a contratar este, aquele e aqule outro. O pacote era fechado com estrelas de primeira grandeza e depois o clube sucumbia. Pois este fim de temporada _ com o mercado já aberto para as mais diversas negociações - mostra outro procedimento dos clubes. Ninguém fala em estrelas e todo mundo quer apostar no uso da palavra planejamento na pratica.
Acredito que os resultados obtidos pelo Internacional e pelo São Paulo têm ligação com esta postura _ não sei até quando ela se manterá, mas vejo-a como altamente saudável pelo o desenrolar da temporada. Quem olhar com a necessária atenção os elencos destas duas equipes observará que não há a figura da "prima-dona". Aquele que se comporta como se fosse uma estrela. Com direitos a todas as regalias.
Vejam no caso do São Paulo, o goleiro Rogério Ceni. Lembro que em um Bem,Amigos, do SporTV, título brasileiro conquistado, ele sempre cedia a vez para o Leandro. Sabia que se não tomasse esta atitude as perguntas se concentrariam nele e o atacante ficaria em segundo plano. Os outros jogadores não podem ser considerados ídolos e tampouco craques.
O Internacional não vive situação diferente. A imagem do Fernandão correndo pelo Beira-Rio, sem camisa, e pulando como se fosse uma criança de férias mostra que ele tem lugar especial no coração do torcedor. Mas assim como o Rogério Ceni, ele não assume ares de grande estrela. Não vende a idéia de que é melhor do que os outros.
Aumenta a minha certeza de que a política de contratações do Internacional e do São Paulo serve de modelo para outros clubes o fato de que o Abel Braga, a cada vitória do Internacional, e o Muricy Ramalho, a cada exito do São Paulo, sempre exaltam a força do grupo. Preferem ressaltar o coletivo e minimizam o individual.
Está cada vez mais claro que nos dias de hoje o sucesso de um time passa por uma série de aspectos. O craque jamais perderá o seu lugar. Ele é fundamental! Mas entre tê-lo e não poder mantê-lo, o melhor é pensar de outra forma e administrar com inteligência.
PONDERAÇÃO
Não posso deixar de observar o que considero um equívoco dos clubes brasileiros nas grandes conquistas. Me chamou a atenção o fato de a maioria dos jogadores do Internacional quando o time entrou no Beira-Rio estarem sem o uniforme _ específicamente a camisa. Tá certo que o calor era insportável, mas alguém da diretoria do clube deveria atentar para um pequeno detalhe: é nessas horas que a marca do time mais aparece. E aquelas imagens foram para o mundo inteiro.
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FESTA QUE EMOCIONA
A recepção ao Internacional foi comovente. Há tempos não via uma torcida tão encantada e identificada com uma conquista como a do colorado. Foi de deixar arrepiado o mais nórdico dos apaixonados por futebol. Continuo a pensar no resultado obtido pelo clube do Rio Grande do Sul e cada vez mais me convenço de que foi uma conquista para ser muito valorizada.
Existe em parte do elenco verde e amarelo a tendência a sempre a desconstruir para depois construir. Catedráticos de plantão enxergam os defeitos do Barcelona e jogam no lixo os méritos do Internacional. Vejo a questão de forma diferente.
O Barcelona, como todo grande time, não é imbatível e quando perde os méritos do adversário são muito maiores se compararmos com os deméritos do derrotado. Seria muito interessante que os técnicos adeptos da cautela, apaixonados pelo defensivismo e comprometidos com a marcação observassem com a atenção necessária o gol marcado pelo Internacional. Está ali um raro exemplo de como deve partir para o ataque uma equipe que rouba a bola do adversário e sabe que ele é superior.
Muitas vezes, por medo, por miopia, incompetência ou escassez de bons jogadores, o técnico de plantão arma o seu time na defesa. Lota o meio de campo de volantes e não consegue imaginar uma jogada sequer de contra-ataque. Pois saibam tantos quantos a estas lerem que o retranqueiro é quem mais precisa saber contra-atacar. E o Internacional fez com uma precisão incrível.
Quando o Iarley recebeu a bola, os dois atacantes que o acompanharam (Adriano Gabiru e Luís Adriano) correram para o ataque. Cada um numa direção, o que serviu para dificultar ainda mais a marcação do Barcelona. Deu no que deu. Veio o título e ficou a lição: quem quer se defender tem que saber atacar. Na hora certa.
MODELO DE GESTÃO
O mercado brasileiro não tem condições de competir financeiramente com o europeu e tampouco o asiático. Mas boas idéias e meios de administrar um clube de forma eficiente não tem nada a ver com o poderio econômico. O Internacional é um bom exemplo _ ressalte-se que existem outros _ de como se deve fazer. Deixar a soberba no fundo de uma gaveta seria bom para muitos dirigentes que fazem do lamento profissão.
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ESCOLHA DE ACORDO COM OS TEMPOS
Não tenho nada contra o Cannavaro, mas não deixa de ser estranha a escolha de um zagueiro como o melhor jgoador do mundo. Antes que os defensivistas se manifestem, o esclarecimento faz-se necessário: o Cannavaro não fez uma temporada tão encantadora assim para ser eleito o melhor do Planeta Bola. Disputou uma Copa do Mundo com desempenho acima do razoável, mas é conveniente lembrar que a ausência de atacantes pontuou as discussões sobre o Mundial. Volta e meia surgia um catedrático de plantão para lamentar o excesso de jogadores no meio de campo e a falta de homens capazes de empurrarem a bola para dentro do gol.
O raciocínio então fica lógico. A vida dos zagueiros no Mundial da Alemanha não foi tão difícil assim. Para os competentes, então, a vida ficou mais fácil. E o Cannavaro é um deles. Sobra na turma, mas não o suficiente para ser eleito o melhor do mundo. Invoco a tese do par ou ímpar, tão antiga quanto o drible ou o chute de efeito, que ajuda a formar os times nas peladas da infância. No par ou ímpar, no cara ou coroa, o menino escolhe o Ronaldinho Gaúcho, quer o Zidane e depois pensa no Cannavaro. Será assim sempre. Por um destes mistérios que o futebol cada vez mais cria _ será que é mistério mesmo? _ decidiram que um zagueiro é o melhor do mundo. Nada mais emblemático.
Emoção na festa
Fiquei mais encantado com a escolha da Marta como a melhor jogadora do mundo. Outro dia assisti a reportagem feita com a jogadora e exibida no Esporte Espetacular, programa dominical da Rede Globo, e a história de vida da Marta emociona. É uma daquelas brasileiras a quem o país diz não, desde os tempos da bisavô. E qual o sertanejo do Euclides da Cunha se revela cada vez mais forte. A Marta é uma forte. Fisionomia de índia, jeito de moleca, tem uma habilidade impressionante e uma determinação comovente.
Detesto comparações, mas os lances da eleição do Cannavaro foram tão glaciais quanto a sua escolha, enquanto a da Marta teve emoção. Uma coisa bem brasileira e cada vez mais distante de nós.
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O FUTEBOL SE GANHA É NO CAMPO
A vitória do Internacional é apenas mais uma prova de que o futebo, entre todos os esportes, é o mais fascinante. Não foi aversão ao vermelho ou desejo de ser do contra que muita gente, inclusive o degas aqui, apontou o Barcelona como favorito. Tinha, e tem, credenciais para tanto. Mas durante os 90 minutos o que se viu foi uma partida marcada pelo equilíbrio. E a razão deste equilíbrio passa pelo jeito de atuar do Internacional. Para o que muitos consideravam impossível para os jogadores do Internacional não foi.
A equipe treinada por Abel Braga _ este teve o seu melhor ano na carreira de técnico _ foi obcecada na marcação. E soube fazê-la de forma tão eficiente que nem sequer precisou apelar para as faltas.
Esta, entre as muitas, foi uma das melhores lições que o Internacional deu no Japão. É possível uma equipe brasileira, genuínamente brasileira, marcar, não conceder espaços e não apelas para a violência. Em nenhum momento, o Internacional trocou a bola pela canela, joelho ou tornozelo alheios. Foi um time determinado, mas que ignorou a violência.
Ao falar sobre a marcação é impossível não citar dois jogadores da linha de defesa que sobraram na partida de ontem: o lateral-direito Ceará e o zagueiro Fabiano Eller. O primeiro teve uma missão capaz de provocar pesadelos: encurtar os espaços de Ronaldinho Gaúcho. O fez com a atenção de um caçador diante da presa. Acompanhou o Ronaldinho pela ponta e no meio. O segundo mostrou que o prêmio de melhor na posição no Campeonato Brasileiro não foi por acaso. Sou fã dos canhotos em geral e deste em particular. É zagueiro com um senso de colocação e tem o poder de prever as jogadas.
Saio da defesa para o meio de campo, no qual os esforçados Wellington Monteiro e Edinho souberam compensar a imprecisão no passe, por exemplo, pela dedicação. Ficou este setor limitado ao Fernandão. Por conta de uma visão de jogo maior do que a dos demais. ele nem sempre é compreendido. Mas tem um toque de bola e uma objetividade para jogar futebol impressionantes. Dos quatro homens do setor, o que menos me agradou, neste e no outro jogo, foi o Alex. Não conseguiu entrar no ritmo da partida e o colombiano Vargas, que o substituiu, foi mais útil para o time.
Na frente, o Iarlei teve vários méritos. Passam pela percepção do jogo no gol marcado pelo Adriano e também de entender que com a saída do Fernandão ele deveria se transformar no grande nome do time. Da teoria para a ação foi um passo _ o do gol _ e poderia muito bem ter sido eleito o melhor jogador da partida ou do campeonato.
Quando escrevi que o ano foi o melhor na carreira de Abel Braga me referia ao fato de que ele precisava de títulos desta importância. Não observo o trabalho apenas pelo resultado, mas um sujeito com a dedicação do Abel precisava chegar a este nível. Chegou. Com méritos.
O ano termina com o Internacional no topo e também o futebol brasileiro. Venceu _ na mesma temporada _ o último campeão mundial e também o campeão da Europa. Não há o que discutir e tampouco argumentar no sentido contrário. É um título mais do que merecido, que transforma todos os participantes em heróis na vida de um clube que tem um passado para orgulhar, um presente para comemorar e um futuro mais do que auspicioso.
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O FIM DOS CLICHÊS
Há tempos não via um time atuar tão bem como o Barcelona diante do America. Foi uma exibição de alto nível de uma equipe que desafina o coro dos contentes. Não existe no Planeta Bola time com tamanha vocação ofensiva e tão obcecado pelo gol como o Barcelona treinado pelo Frank Rikjaard. Os lorpas e os pascácios _ a palavra é roubada do vocabulário rodriguiano _ vão atribuir ao número de grandes jogadores que o time leva para dentro do campo. Evidente que a grande estrela desta companhia é o Ronaldinho Gaúcho. Mas peço ao distinto público para que preste atenção no Deco.
É a mais completa tradução do meia-armador de outras épocas. Ao vê-lo ditar o ritmo da esmagadora vitória sobre o Barcelona, eu confesso que voltei no tempo. Retornei à época das calças curtas e na minha frente estavam figuras como o Gérson, o Ademir da Guia, o Rivelino, o Falcão e o Geraldo, que foi embora cedo. Caso por aqui tivesse continuado, ele hoje seria tão respeitado quanto os outros que citei.
Não há no futebol mundial jogador com as características do Deco. Teve um início de temporada ruim. Muito provavelmente por conta do desgaste da Copa do Mundo. Mas já está na "ponta dos cascos" e merece as honras de grande jogador. Não errou nem um passe sequer ao longo dos 90 minutos. Na maior parte do tempo, ele tocou de primeira e deixou os mexicanos desconcertados. Fiquei com a impressão até de que alguns jogadores do adversário chegaram a pensar em pedir uma explicação sobre esta ou aquela jogada e os mais ousados até cortejaram a idéia de pedir um autógrafo ou uma foto. Deu um show de bola e foi um dos arquitetos da vitória.
O outro foi o Ronaldinho Gaúcho. Também dá sinais, a cada jogo, de que se reencontrou com aquele Ronaldinho Gaúcho de antes da Copa do Mundo. O que esteve na Alemanha foi uma caricatura _ ruim _ deste jogador que hoje pela manhã deu exemplos de arte e mostrou que só os míopes acreditam ser possível não poder combinar arte com objetividade.
Quanto prazer dar em ver o Ronaldinho Gaúcho no campo! Não tenho nenhuma explicação para a discreta atuação dele na Copa do Mundo, mas sei que o jogador que ontem desfilou talento pelo estádio de Yokohama estava muito mais alegre do que o modelo com a camisa verde e amarela do Mundial.
Fazem mil teorias _ apenas em meia hora de conversa _ sobre a má performance do RG. Pouco se me dá qual é a melhor ou a mais completa. O que sei é que ele gosta de jogar livre, mas sabe marcar; gosta de driblar, mas sabe tocar; gosta de ser feliz. E é no Barcelona.
Nem o mais fanático dos colorados vai colocar o Internacional como favorito no confronto com o Barcelona. Dizia o velho turfista que "carreiras são carreiras" e um jogo apenas de 90 minutos é aberto para qualquer resultado. O Barcelona é favorito absoluto, mas pode perder. Como? Isso é trabalho para o Abel Braga, mas passa por uma marcação forte _ sem confundir com falta ou agressão _ e toques rápidos. É difícil, mas não é impossível. Mas é difícil.
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BOA EXPECTATIVA
Pelo que o Al Ahly, do Egito, e o America, do México, apresentaram nos jogos de estréia do Mundial de Clubes não é exagero supor que Internacional e Barcelona disputarão a final da competição. O confronto entre o time que encanta a Europa e o que está entre os melhores do Brasil mostra a quantas anda o futebol de um continente e do outro. O Barcelona é hoje o time que mais fatura no mundo. Tem o melhor jogador do planeta _ por favor não pensem que o Ronaldinho Gaúcho da Copa do Mundo é o original _ e é administrado com o profissionalismo que por estas terras, na maioria das vezes, não sai da teoria.
Já o Internacional pode ser considerado hoje um modelo para outros clubes que procuram se fortificar. Tempos atrás _ não tanto assim _, o clube patinava e a ameaça do rebaixamento chegou a deixar de ser apenas uma suposição. Pois o Internacional de hoje está distante daquele clube em estado pré-falimentar.
É a maior prova de que toda crise tem solução, desde que se queira. O Internacional solucionou a sua e entendeu que o time forte é apenas uma consequência do clube sólido e bem administrado. Não há dúvida de que o Barcelona é favorito. Noves fora os ataques de Policarpo Quaresma _ aquele personagem nacionalista criado pelo Lima Barreto _ que todo o brasileiro em algum momento da vida tem, o time espanhol encontra-se em estágio superior ao brasileiro.
Tem um estilo de jogo que assusta a maioria dos técnicos _ não apenas os brasileiros _ e por conta desta maneira de atuar, a equipe consegue fazer a diferença. Entre a ousadia e a cautela, a maioria opta pela segunda opção. Com o Barcelona acontece exatamente o contrário. Acredito que o Frank Rijkaard é um adepto do jogo jogado. Pouco importa se o time vai sofrer um gol. O mais importante é saber que ele tem condições de marcar mais do que leva. É difícil um jogo do Barcelona terminar sem o time catalão ter feito nem um gol sequer. Que bom que existem times assim.
O Internacional é diferente. Sai para o ataque, mas tem sempre um olho para o que fazer na defesa. Muitas vezes esta preocupação se sobrepõe ao que deve ser feito do meio de campo para a frente. O mais importante no que ainda é um hipotético confronto entre os dois times fica por conta da cabeça dos jogadores. As equipes brasileiras que não se deixaram impressionar com o status dos rivais sempre conseguiram repetir no Japão o que fizeram em solo brasileiro. Não digo que é o determinante para a vitória, mas considero de extrema importância.
Para não cair nesta armadilha, o Internacional tem um personagem que jamais se intimidou com quem estava na sua frente: o técnico Abel.
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LIÇÕES PARA SEMPRE
Volta e meia o elenco verde e amarelo mais decepciona do que alegra. Basta ler os jornais, ouvir alguém que tem responsabilidade pública ou acompanhar atentamente o dia a dia. Falo do cidadão comum. Aquele que reclama da violência é capaz de estacionar o carro em fila dupla, furar a fila no cinema, evitar o uso do faz favor e do obrigado. A contradição é permanente e quando você vê aqueles 12 sujeitos do vôlei se comportarem como se fosse a primeira vez, a sensação que fica é a de que tudo é possível, desde que se queira.
Não adianta tentar evitar a comparação com a Seleção Brasileira de futebol. Responsável pela maior decepção na história recente do futebol verde e amarelo em Copas do Mundo, o time treinado pelo Carlos Alberto Parreira entra em foco quando se pensa no que a turma liderada pelo Bernardinho faz em quadra.
São realidades distintas, assédios diferenciados, mas há algo que os une _ ou pelo menos deveria juntar: a vontade de justificar a chegada no topo, de ter desejos de vitória por mais que vença. Ninguém na Seleção Brasileira masculina de vôlei chegou no Japão acima do peso, ninguém que se deixou levar pelo senso individual e ninguém colocou o seu pensamento à frente do que era importante para o grupo.
Tamanha demonstração de altives e estoicismo passa pela figura do Bernardinho. Técnicos são importantes _ não tanto quanto muitos pensam _ e ficam ainda mais presentes quando sabem que um jogo não se decide apenas na tática. Quando o Ricardinho, o Sérgio e o Gustavo bateram boca, o Bernardinho disse que se a troca de ofensas foi motivada pelo desejo de melhorar e vencer, o assunto não merecia reparos. É aí que entra a figura do líder. Não deitou falação e tampouco saiu pelas esquinas e metrôs do Japão pregando que não aceitaria isso ou aquilo. Entendeu que as desavenças só aconteceram por conta de um desejo _ temporariamente explosivo _ de vencer.
É deste apetite que estou a falar. É desta vontade de olhar a bola de vôlei como se fosse um prato de comida; de comemorar o ponto como se ele fosse capaz de evitar a derrota. Considero o casamento o melhor exercício de convivência para o ser humano. Tudo se encerra ali. Poder, compreensão, paciência, intolerância, prepotência, arrogância e altruísmo. Quando se consegue manter a paixão, o desejo de fazer coisas novas _ por mais tempo que exista de convivência _, o casamento flui. com tropeços aqui e ali. É o caso do vôlei. Por mais que conquistem, os jogadores estão sempre com mais vontade de vencer, de conquistar. E sabem que para tudo é preciso sacrifícios. Não se ganha na fotografia e tampouco no nome. O vôlei demonstra isso o tempo inteiro. Impossível compará-los com os astros do futebol. São conhecidos em todo o planeta e capaz de provocar engarrafamento na Avenue Foch, em Paris, no Aeroporto de Narita, no Japão ou no Central Park, em Nova Iorque.
Mesmo assim, a paixão não pode morrer. O ano de 2006 se aproxima do fim e deixa como saldo uma grande lição: sem paixão e a perfeita noção de que o sacrifício é fundamental nada será conseguido. O vôlei masculino sabe e consegue.
PARABÉNS AO PARANÁ
Quando o Campeonato Brasileiro começou, os que apostavam no Paraná falavam baixo e eram discretos. Mesmo que não se classficasse para a Libertadores, o time já poderia entrar de férias com o orgulho em alta. A vaga assegurada para a principal competição do continente só aumenta o valor de uma campanha, que teve na parceria dos jogadores com o Caio Júnior o maior mérito. Que o Paraná não projete a presença na Libertadores pelo que fez no Brasileiro. Se quer mesmo mostrar que nada aconteceu por acidente, a entrada na Libertadores passa por reforçar o time e se estruturar para conhecer como funciona a competição. É muito ruim sofrer tanto para entrar e mostrar que só foi a passeio na competição.
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O ASSUNTO DA VEZ
Entre os muitos problemas que há nesta em que se plantando tudo dá, o de atacar o sintoma e ignorar a doença é um dos mais tradicionais. Vem desde os tempos da primeira carta e pelo andar do que já foi carruagem e hoje é carro turbinado não se enxerga solução no horizonte. Vejam ilustres blogueiros o caso que agora alimenta o noticiário: a adulteração das certidões de nascimento. Primeiro foi a descoberta da fraude em relação a idade do Carlos Alberto, depois a de um menino de rua _ que nem os pais conhece _ e o caso do Souza, em reveleção voluntária, sobre o que aconteceu no começo dos anos 80.
O que existe em comum na biografia destes três personagens? A resposta é tão simples quanto incômoda para muitos brasileiros: a desesperada fome, a necessidade de encontrar um caminho que leve à sobrevivência e uma maneira de compensar as mazelas verde e amarelas. Que as vezes me deprimem por entender que a estrada em busca das soluções sequer saiu do projeto.
Não quero com estas comparações transformar esses casos que conhecemos e os seus personagens em exemplos da sociedade ora perversa e ora caridosa que alimenta o nosso dia a dia. Mas é impossível ignorar a motivação que determina a ação. No depoimento exibido pelo Jornal Nacional, da Rede Globo, e no SportvNews, do canal a cabo SporTV, o Souza explicou que a adulteração não teve vida longa. Foi descoberta e, mesmo com todo prato e bolso vazios, ele se deu conta do erro e hoje agradece.
Já o caso do Karioca, que originalmente tem 17 anos e se apresentava com 15, tem componentes ainda mais fortes dos dramas que atingem os desassistidos. Era menino de rua no Rio de Janeiro e salvou-lhe a habilidade com os pés. Foi descoberta a adulteração e acredito que o Karioca não deve ser punido. Precisará, muito, de quem o oriente, ajude e o proteja da malta de aproveitadores que faz do futebol a morada preferida.
Culpar o Karioca _ poderia estar num sinal de trânsito ou dando "bote" em turista na praia _ é simplificar a questão. Seria mais interessante que casos como este despertassem a atenção de quem de direito e se transformassem em exceções. Não falo da adulteração, mas do que a provoca.
Bom dia para todos
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O ESPORTE NÃO É UMA EXCEÇÃO
A discussão entre o Ricardinho, o Gustavo e o Sérgio na vitória da Seleção Brasileira masculina de vôlei sobre a Bulgária ganha um destaque exagerado aqui, ali e acolá. Não é de hoje que o bate-boca entre atletas do mesmo time merece sempre um destaque. As vezes até maior do que o resultado obtido _ como no jogo desta madrugada, quando o vôlei garantiu sua presença nas semifinais do Campeonato Mundial.
Percebo no tamanho da repercussão um velho conceito _ muito comum no futebol _, mas que se espalha e ataca em outras modalidades esportivas. Principalmente quando a envolvida é a Seleção Brasileira. O fato é capaz de gerar as mais variadas interpretações e coloca na maior prateleira comentários do tipo: como estará o time? será que isso é bom para o grupo? o grupo está dividido?
Confesso que fico um pouco enfastiado dessas questões. Parece que no esporte não é permitido discutir. A impressão é que as discordância, o bate-boca e a exarcebação dos espíritos só acontecem em quadras e campos de futebol. Nestes lugares _ ou seriam altares? _ nada é permitido. O mandamento primeiro e único determina que todos se entendam, se abracem, sejam cordatos e ninguém ouse discordar ou elevar o tom de voz.
Quanta hipocrisia! No momento em que a bola sobe, é arremessada, chutada ou defendida o sujeito tem o direito de fazer tudo o que pode _ dentro dos limites da ética _ pela vitória. O fato de os três jogadores terem batido boca pode muito bem não ter significado algum. Nestes anos tantos de profissão já vi gente com a voz elevada, um xingar o outro, ficar sem se falar e ponto. E o trabalho continuou. Os resultados foram alcançados.
Seria muito interessante que os clichês sobre fatos como esse não ganhassem a relevância exagerada que recebem. Fica sempre a impressão que os atletas ocupam um lugar diferente na vida, que são guerreiros e pessoas com outros sentimentos. Não é nada disso. O que se vê numa quadra ou num campo é uma repetição do que acontece em uma agência bancária; um hospital; uma repartição e uma redação.
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IMAGEM QUE FICA
A rodada deste fim de semana serviu para consolidar a permanência do Fluminense e do Palmeiras na primeira divisão. Não vejo nenhum torcedor do tricolor ou do verde e branco comemorando. Há um gosto de ressaca no ar e a decepção que tomou conta de todos eles levará algum tempo para desaparecer.
Confesso que o Fluminense me enganou nesta temporada. O começo foi mais do que animador. Muitos criticaram a diretoria pelo fato de ter entrevistado candidatos ao cargo de treinador. Observei ali a tentativa de fazer algo diferente. Mas o tempo mostrou que a tentativa de mudar o rumo da prosa não era algo muito forte. Bastou um tropeço aqui, um insucesso ali e tudo foi se modificando.
Tantos foram os técnicos que o Fluminense perdeu o rumo e provavelmente nem sabe o que vai fazer na temporada de 2007. Acredito que tem dúvidas sobre a permanência do PC Gusmão e as vezes tenho a impressão de que ele também não está muito convicto de que deve continuar.
O Palmeiras também termina o ano com uma imagem muito ruim. Contratou jogadores que não têm a menor condição de vestirem a camisa do clube. A saída do Tite foi a maior mancada da diretoria. Até agora, a cartolagem não encontrou um substituto à altura e o elenco parece cada vez mais perdido. Seria interessante, tanto para o Fluminense como para o Palmeiras, que os responsáveis pelo Departamento de Futebol dos dois clubes olhassem com racionalidade para os problemas enfrentados. Um pouco de modéstia também não faria mal a nenhum deles.
AMÉRICA DO BRASILEIRO
Há tempos, o futebol brasileiro não tem um América na primeira divisão. A classificação do time de Natal foi um prêmio pela ótima campanha. Discreto e eficiente, o time ganhou uma vaga no primeiro escalão do futebol nacional. Passada a euforia deve pensar em como se organizar para não ser apenas um passageiro na Série A.
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